A rotina de uma jogadora de futebol não termina quando acaba o treino. Para Vilmara, zagueira do Vasco, é apenas uma parte do dia. Aos 28 anos, a atleta divide a semana entre compromissos do clube, academia, recuperação física, jogos e a faculdade de fisioterapia. Para dar conta de tudo, ela precisa de organização e, principalmente, disposição para encarar o cansaço.
A relação com os estudos começou ainda no início da carreira profissional. Aos 18 anos, quando atuava pelo Cresspom, do Distrito Federal, recebeu a primeira oportunidade de cursar uma graduação por meio de uma parceria do clube com uma universidade. Como não havia Fisioterapia disponível, ela começou a cursar Enfermagem.
Foram dois semestres até perceber que aquela realmente não era a área que queria seguir. A oportunidade de estudar Fisioterapia apareceu quando Vilmara voltou ao Rio de Janeiro para defender o Fluminense. Em 2020, o clube tinha uma parceria com a Estácio, que oferecia bolsas de estudo. Foi quando ela finalmente conseguiu iniciar a graduação que sempre quis.
— Eu sempre gostei muito de estudar. Sempre tive essa gana também nos estudos. Eu não queria ficar parada. Eu tinha esse desejo de fazer faculdade – explica a zagueira.
A formação, porém, não avançou no mesmo ritmo da carreira. Depois de deixar o Fluminense, Vilmara passou pelo futebol do Amazonas e morou em Itacoatiara, no interior do estado. A distância de um polo da universidade fez com que ela precisasse cursar parte das disciplinas de forma on-line, algo especialmente complicado em uma graduação que exige atividades presenciais. O planejamento inicial era concluir a graduação no primeiro semestre de 2026.
Hoje, Vilmara está no sexto período, mas garante que o atraso não diminuiu a vontade de chegar ao diploma.
No Vasco, onde chegou em 2024, a dificuldade continuou por causa da logística dos treinamentos. Na época, as atividades eram realizadas no Artsul, em Nova Iguaçu, o que tornava difícil encaixar as aulas presenciais depois dos trabalhos do clube.
A mudança da rotina de treinos ajudou. Atualmente, a equipe trabalha no CT de Caxias, na Washington Luiz, e Vilmara frequenta a faculdade presencialmente duas vezes por semana. O semestre atual, segundo ela, está mais tranquilo do que o anterior, quando tinha aulas presenciais praticamente todos os dias.
Mesmo com a melhora na logística, o cansaço continua sendo o principal obstáculo. A solução muitas vezes é seguir mesmo quando o corpo pede descanso.
— Às vezes eu saía do treino falando: ‘Hoje eu não vou pra faculdade, hoje eu não aguento’. Mas aí é matéria importante. Todas as áreas que cursam sempre têm aquela matéria que é super importante para sua graduação – conta.
Além da própria organização, Vilmara conta com o entendimento dos professores e o respaldo do Vasco. Quando jogos, viagens ou compromissos do clube impedem sua presença em alguma aula, ela consegue apresentar declarações para justificar faltas ou solicitar uma segunda chamada.
— Eu fico tranquila porque eu tenho respaldo das duas partes, tanto da faculdade quanto do Vasco também – completa.
A escolha pela Fisioterapia também tem relação direta com o futebol. Durante a passagem pelo Fluminense, Vilmara sofreu a primeira lesão e passou mais tempo dentro do departamento médico. Foi ali que começou a enxergar a profissão de outra maneira.
A graduação também passou a interferir na maneira como Vilmara entende o próprio corpo. Conhecimentos de anatomia e outros conteúdos estudados na faculdade ajudam a atleta a interpretar melhor o que sente durante os treinos e saber quando é necessário diminuir o ritmo ou procurar o departamento médico.
— Eu acho que isso também me ajuda muito a reconhecer até onde eu consigo ir. Tipo, aqui eu preciso dar uma segurada, preciso falar com o departamento médico, com a fisioterapia, explica.
No dia a dia do Vasco, ela também aproveita a convivência com os profissionais do clube para colocar em prática, ainda que em conversas, o que aprende na faculdade.
— Eu encho muito o saco do preparador físico e da nossa fisiologista, porque agora tudo com eles eu quero falar em termos acadêmicos – brinca.
A ideia de Vilmara é continuar na Fisioterapia quando encerrar a carreira como jogadora. Mas, ao contrário do que poderia parecer, ela não pensa necessariamente em permanecer no futebol.
Apaixonada por crianças, a zagueira planeja se especializar em Pediatria e trabalhar com crianças neuroatípicas. A possibilidade de unir a profissão ao esporte, no entanto, não está completamente descartada.
Por enquanto, os dois caminhos continuam sendo construídos simultaneamente. No futebol, Vilmara segue como zagueira do Vasco, tendo conquistado o Campeonato Brasileiro A2 de 2026. Na faculdade, avança para os últimos períodos da graduação. E, entre uma atividade e outra, mantém o objetivo de transformar duas paixões em projetos para o futuro.
— São paixões que eu vou tentando conciliar junto uma à outra. Não vejo a hora de poder me formar também, poder ser chamada de fisioterapeuta.
Para ela, a oportunidade de estudar enquanto joga profissionalmente também representa algo maior. Vilmara participou de um projeto de extensão dentro do Vasco para aproximar pessoas que não conhecem a realidade do futebol feminino e mostrar que a modalidade também pode abrir portas para além das quatro linhas.
— Não é só o futebol. O futebol também traz oportunidades, como eu tive, da questão de fazer a faculdade, de não me preocupar em gastar dinheiro com isso. Eu não tenho o direito de desistir porque as pessoas queriam estar no meu lugar e infelizmente não tiveram essa oportunidade.
Enquanto a carreira nos gramados continua, a formação acadêmica avança em paralelo. A cada treino, aula e viagem, Vilmara segue tentando encontrar espaço para as duas versões do futuro que começou a construir ainda no início da carreira: a jogadora e a futura fisioterapeuta.
Fonte: ge




